o compromisso com a Musa
intimidade com a palavra e uns vespeiros
uma vez, alguns meses depois do lançamento do falecido Mormaço - meu primeiro livro -, fui convidada para participar de uma mesa de conversa ao lado de outros dois escritores e um editor respeitado, com muitos anos de experiencia no mercado. havia uns poucos gatos pingados na plateia, mas eu estava bastante nervosa. achava que aquela mesa era o começo de alguma outra coisa. em dado momento, o editor respeitado fez um enorme monólogo sobre a arte da escrita. o que ela era, o que ela não era.
meio tímida e letárgica, eu acenava e tentava não demonstrar o quão pouco eu conhecia todas as referências que aquele senhor aprumado apresentava, o quão pouco aquilo tudo me interessava. em determinado momento, o homem disse algo que me descongelou. ele afirmou que a poesia não te dava nada. o poeta era masoquista. havia de amar muito os livros, que não te amariam de volta. começou a se alongar nas próprias frustrações de ex escritor que se achava muito talentoso e esperava muito do mundo, até descobrir que o reconhecimento era para uns poucos sortudos. e repetiu: a poesia não te dá nada.
quando alguém com mais conhecimento do que eu expressa uma opinião com veemência, levo um tempinho para entender se estou de acordo. passo um tempo questionando o que de repente não é ignorância e ingenuidade minha do que realmente é desconfiança legítima. naquele dia, isso não aconteceu. fiquei imediatamente furiosa. não sei bem o motivo. não era com o editor, não exatamente. não era uma raiva orientada a um sujeito específico. o meu corpo reagiu com violência àquela afirmação para me mostrar que discordava completamente. até então eu estava bem polida na mesa, mas naquele momento interrompi o grande editor para dizer, com toda a coragem e paixão de uma escritora estreante que na época tinha 22 anos, que o verdadeiro poeta não escreve esperando que a poesia o dê algo em troca. a poesia é o objetivo por inteiro. se você se aproxima dela esperando que ela te dê algo, esperando reconhecimento - que vem do outro, não da poesia - você se aproxima perdendo. mas se você se aproxima sabendo que o fim é nela mesma, a poesia te dá tudo.
minha bochecha ferveu de vergonha, mas o escritor ao meu lado se empolgou e concordou comigo. mais velho, tendo publicado diversos títulos, esse escritor afirmou que a poesia havia dado a vida a ele. tudo que ele tinha ele havia conquistado graças a poesia. o emprego, os amigos, os relacionamentos, a paixão pela própria vida, tudo. sei que ele não era rico, não era famoso, não era detentor de Jabutis, mas no cenário underground onde ele movimentava uma livraria e encontros com os pares, ele já era muito realizado e vivo. ele havia encontrado o lugar dele, mostrando que encontrar o seu lugar na poesia não precisa ser se tornar um poeta conhecido. pessoalmente, acho até que o tal do editor também tinha tudo graças a poesia, de certa forma. quando não encontrou o que esperava, foi para as adjacências. ele não virou advogado, engenheiro, motorista de ônibus, feirante. ele continuou perto dos livros, encantado pela força deles, mas saía dizendo que a poesia não o tinha dado nada para se proteger da vergonha de não ter alcançado seu ideal primário. mas quem o havia dado as ferramentas para ganhar o pão de cada dia e viabilizado que ele estivesse naquela mesa dizendo o que ele achava que era poesia e o que não era, foi a própria poesia. mas isso é a minha análise de botequim. o que aconteceu foi que o editor acabou se calando sobre esse assunto e encontrando outra coisa sobre a qual monologar.
algo que eu passei a pensar desde então é que o que diferencia o escritor daquele que escreve é que um é apaixonado pelo escrever e o outro é apaixonado pelo texto escrito. vai do nível de intimidade e compromisso que se tem com a palavra mesmo e principalmente quando não existe nenhuma promessa.
eu sou apaixonada pelo escrever mesmo quando não estou escrevendo. há pausas e pausas. pausas tranquilas, indiferentes, torturantes. há pausas em que o escritor não escreve porque está bloqueado. porque não quer. porque não tem tempo ou recursos. porque precisa fazer nada. porque precisa fazer muitas coisas. às vezes, a gente não escreve porque internamente está escrevendo. você sente quando está vivendo apenas para sequestrar impressões, repertório. finge habitar o mundo físico enquanto está em comunhão com o mistério.
às vezes, quando não estou escrevendo nem externa e nem internamente, sinto saudade. nem sempre é uma saudade doída. posso estar em paz com não escrever e ainda sentir saudade do frenesi de estar diante de um caderno ou um teclado e experimentar que há uma outra coisa escrevendo através de mim. experienciar os dedos se moverem sozinhos. a completa comunhão com a prática que faz parecer que nenhuma outra coisa importa no mundo além dela. eu chamo de Musa, mas você pode chamar do que quiser. o inconsciente. deus. eu sei lá. eu sei que volto para ela até quando estamos brigadas. quando não quero escrever, escrevo sobre não querer escrever. quando acho que escrevo mal e odeio tudo o que escrevo, escrevo sobre escrever mal e odiar tudo o que escrevo.
nada disso significa que a poesia precisa ser colocada só no pedestal etéreo que eu, uma apaixonada, tendo a colocar. os escritores precisam de contratos editoriais mais justos e a escrita é, sim, um trabalho a ser remunerado. trata-se de direitos básicos dentro do sistema capitalista, direitos básicos do produtor intelectual de uma obra que quase sempre só enche o bolso de editoras. talvez algumas editoras independentes do instagram te convençam do contrário, mas são essas as com os contratos mais nojentos possíveis, porque além dos direitos autorais tão ridículos quanto os das grandes, elas vão se vender como revolucionárias.
é claro, há editoras independentes admiráveis e sérias, apanhando para produzir livros de qualidade. mas muitas não passam de gráficas premium que vão fazer você achar que elas estão te fazendo um favor. vão fazer você achar que está apoiando algum cenário underground ao ceder sua produção por uma prestação de contas vergonhosa e duvidosa no final do ano, isso quando ela vem sem você precisar cobrar. o pior é a propaganda. o pior é que elas se aproveitam da sua ignorância. o pior é que elas são comandadas por meia dúzias de ex escritores frustrados onde um lambe as bolas do outro, convencidos de que entendem alguma coisa de literatura, fazendo trabalhos de edição porcos e publicando livros em quantidades quase compulsivas semanalmente que obviamente sozinhos não vão circular, visto que não recebem nenhum tipo de destaque, cuidado, suporte. mas no grosso, com cada poeta se matando para divulgar o próprio livro, convencendo seus amigos e familiares a comprar, essas editoras vão lucrando em cima dos “círculos afetivos dos escritores”, que são muitos, porque essas editoras não possuem critério. coloco aspas porque já ouvi isso sair da boca de muitos editores independentes cretinos que vendem a ideia toda como romântica.
só o que eles fazem é brincar com o ego de alguns escritores. dão a eles a oportunidade de se publicar em um país onde o livro é um objeto de luxo e prestígio. os autores ficam contentes com o nominho impresso na capa. e acabou. se você quiser que seu livro concorra a alguma premiação, você banca integralmente os custos de inscrição. e como até relógio parado exibe o horário correto duas vezes no dia, o livro de uns poucos com condição financeira para sustentar o caminho até a premiação leva um Oceanos aqui, um Jabuti ali. a editora sai como a editora que publicou um vencedor naquele ano, sem ter colaborado com a divulgação, sem ter trabalhado no livro com rigor. vende mais. e o escritor tem sorte se aumentarem 2, 3, 5% dos seus direitos autorais.
o que quero dizer é que eu sou apaixonada, mas não sou tão ingênua. eu aprendi muita coisa desde que publiquei meu primeiro livro. coisa boa e coisa ruim. saí com uns traumas também. escrevi outros dois livros desde Mormaço que ainda não publiquei. um deles, Garganta, foi finalista do Loba Festival em 2025 na categoria de não-publicado. e ele segue não-publicado. eu sigo sem tanta sede de ver meu nome impresso. e eu nunca me senti tão escritora.
porque depois de Mormaço, passei um bom tempo com medo de escrever. é claro, eu escrevi mesmo assim e foi assim que nasceu Garganta. um ano depois, tive um episódio depressivo horroroso concomitante a um término de relação muito doloroso, e eu não queria conversar com ninguém. foi assim que nasceu Maria, o mais irritadinho dos três livros. não fui eu que decidi. depois de Mormaço, o que eu decidi foi que eu não era escritora e nunca seria, porque estava morrendo de medo e me acovardando diante da realidade que é expor toda a sua subjetividade na criação de uma obra de arte que com frequência não recebe o cuidado delicado que merece. mas a Musa decidiu por mim. eu não estava interessada nos livros prontos, mas precisava escrever.
hoje eu amo livros prontos, também. e eu vou colocá-los no mundo, onde podem ser mais proveitosos do que na minha vida privada. onde podem continuar se escrevendo, onde seus sentidos podem ir para muito além do que só a minha cabecinha limitada poderia criar, através da leitura de outros. mas em nenhum momento, nessa conta toda, eu espero que a poesia me dê algo.
é claro que é uma delícia ser lida, reconhecida de alguma maneira. foi uma delícia ver Garganta entre os livros finalistas. mas foi só isso, uma delícia. um acaso generoso. não foi a poesia quem me deu. fui eu, ao inscrever o livro. foram as juradas, ao enxergarem potencial nele. a poesia me deu foi uma outra coisa que mais nada poderia me dar: ela mesma. a poesia me deu o prazer de escrevê-la. ainda que eu nunca mais vendesse um livro ou recebesse qualquer tipo de congratulação a respeito dele, eu ainda escreveria, ainda que sobre essa frustração que não tem a ver com a poesia, mas com o meu ego. e o meu compromisso com a Musa é de outra natureza.
para mais retalhos imaginativos, partilho poemas no @iapoes
<3




perfeito, nina. é realmente mto desgastante ser publicado atualmente, boa parte das editoras partilham do mesmo modelo abusivo de contrato. venho escrevendo desde os meus 14 anos, são 7 livros ao total, e não consigo vê-los nas mãos de editoras. depois do meu primeiro titulo publicado, no ano passado, simplesmente não consigo. foi fumo. o seu texto me encheu de esperança de um dia desengavetar tudo e jogar no mundo. de forma independente mesmo. pois vale mais que as histórias por trás de cada verso não me pertençam. vale mais o escândalo de escrever a próxima linha, afinal. e que o fim seja nela mesma, como vc mesmo disse. parabéns pelo texto!
Texto maravilhoso! Li pelo email, mas tive que entrar no substack só pra deixar o amei!