bocas de fomes alegres
penso somente nas fomes alegres
penso nas ranhuras da parede embaixo da janela
penso nas torradas demolidas em tijolinhos
penso na torneira que parou de pingar com o elástico de cabelo
penso no avô esbarrando no corrimão da escada
penso na queda do corpo despejado com gentileza
penso nos olhos azuis esverdeados e o dedão arroxeado e seco
penso na xícara de girafinha e em sua tampa há muito destruída
penso na impressão de que tudo está voltando
penso na impressão de que tudo está diferente
penso no radialista e os fones gigantescos que quebrei
penso no armênia-guarulhos e os codinomes dos motoristas
penso nos animais de carga e na japonesa do delineado vermelho
penso nos rapazes de que nunca quis saber o nome
penso nas garotas de quem quis desesperadamente saber o nome
penso nas calculadas colheres de amendoim
penso nas calculadas colheres de demerara
penso nas empanadas de porco e as bocas de fomes alegres
penso somente nas fomes alegres
penso na funcionalidade dos rodinhos de pia
penso nas patinhas do chihuahua que não conheci
penso no bolo sobre o baixo turquesa da peruana
penso nos quase quinhentos quilômetros
penso sobretudo nos quase quinhentos quilômetros
penso se deveria pensar diferente
penso se você pensa que deveria pensar diferente
penso na voz sobreposta à direita do divã e a falta de respostas certas
não penso em sossegar
não penso nos luxos que as minhas tubas uterinas me impedem de ter
não penso nos luxos que as minhas tubas uterinas me impedem de dar
não penso em pisar devagar ou em pesar devagar
the sun machine is coming down and we’re gonna have a party
(are we gonna have a party?)
você também sente um desejo insaciável de desaparecer?
você também espera desaparecer primeiro no espaço entre eu e você?
para mais retalhos imaginativos, partilho poemas no @iapoes
<3


